Carta Para um Pai Desconhecido

15.1.13




                   
        


Olá, pai.

Escrevo essa carta para dar a conhecer ao senhor que sou sua filha, e que ainda estou viva. Sim, estou. A tua namorada de infância não teve coragem de me abortar quando tu a obrigaste, dizendo que ainda estavas a estudar e tinhas que voltar para o exterior. Até onde eu sei, ela tentou, mas desistiu quando, na sala do doutor, olhou para um calendário de bebés e no mês de Fevereiro tinha uma linda bebé de nome Mirela. Desistiu e, saiu a correr da sala de operação. Ela morreu um mês após o meu nascimento. Hemorragia pós-parto.


Sou a Mirela, nasci no dia 16 de Fevereiro de 1992, tenho 1,75 m de altura, sou magra e de pele escura. Minha avó diz que sou a tua cara até no jeito de falar. 

Por que nunca deste noticias? Por que nunca quiseste saber se a minha mãe teve o bebê ou não? Desapareceste da vida dela... e do mapa.
Não quero inundar esta carta de perguntas e, por isso, não farei mais.
Nunca passei frio, nem fome. Sempre tive um teto para morar. A minha avó é a melhor pessoa que existe e, nunca deixou que eu passasse necessidades. Sabes, sempre sonhei conhecer o meu pai, sempre me perguntei se lá no fundo, bem lá no fundo, tu nunca quiseste saber o que foi feito de mim...
Mas esquece todas a minhas dúvidas, quem te escreve hoje é uma filha necessitada. Não olhe para esta carta pensando que estou a pedir muito, pois não estou.
Necessito de ti, pai. Necessito do teu amor, da tua atenção, do teu carinho, necessito da tua palavra amiga dizendo que vou curar-me desta Leucemia que me maltrata há seis meses, nesta cama de hospital. 
Essa doença me mata aos poucos, tenho apenas mais três meses de vida caso não consiga um dador para fazer o transplante. Mas, nada me entristece mais, do que saber que não tenho um pai que possa apertar a minha mão e dizer que tudo irá acabar bem.
Necessito de algo que tu me negaste há vinte um anos atrás. 
Necessito do teu sangue.

Por favor, pai. Apareça.


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10 Comentários

  1. 'E mais uma vez um texto bastante profundo menina Rosie.
    Alias, mais-que-um-texto, 'e uma carta, muito bem elaborada, que faz-nos sentir de alguma forma o que a "Mirela" passou nesta espera incessante pelo pai.

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  2. Muito profundo.. Nunca iria querer isto para minha filha.. Carta sincera e triste..

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  3. Acreditem, foi triste escreve-lo.
    Infelizmente, em todas as sociedades, existem tais pais...

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  4. Ai Mirela, minha filha, querida, mas nunca amada. Se soubesses a verdade, talvez escreverias doutra forma. Os teus avós maternos nunca aceitaram-me, diziam sempre que a filha merecia alguém melhor. Assim que me apercebi que a Júlia estava grávida, comecei a trabalhar. Os pais da tua mãe tentaram corromper-me com uma enorme quantia de dinheiro, após ter rejeitado, passei a temer pela minha vida, porque fui alvejado e tinha quase a certeza que tinha sido o sr. Augusto (teu avô). Dessa forma, tive que abandonar a província. Sempre a pensar em ti, trabalhei durante todo esse tempo, para que pudesse -de alguma forma- recompensar-te pela ausência. Com muito pesar, li a tua carta. Eu só queria que fôssemos uma família feliz. Hoje, nem o meu sangue te posso dar, com isso, o teu estado só iria piorar.
    Mirela, minha filha, eu tenho HIV.

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  5. Os meus amigos choraram depois d lerem este texto, eu como tenho uma pedra ao inves de coração, fiquei sem acção, sem palavras, afinal tenho dificuldades em exprimir os meus sentimentos, é a minha natureza. Mas cá entre nós UAU!!! Dino Cross

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    1. Muito obrigado, Dino! Não sabes o quanto fico feliz por saber que o texto está a surtir efeitos.

      E fico feliz pela visita (;

      Volte sempre.

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  6. Linda carta , o teu blog é um livro com paginas lindas. Obrigada por teres me mandando o link do blog. Beijao ^^

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